Um Conto Sobre Um Amor Guardado - Parte 3


Quando a viu, ainda de roupão, limitou-se a dizer “oi amor”. Em seguida, parou na porta e disse:

— Peça para a Vera preparar uns wraps de truta para eu ver o jogo dessa noite? Ah… e você poderia separar um vinho para levarmos ao Olavo quando formos lá?

Ele não esperou resposta. Quando a porta fechou, ela correu para o closet. Estava atrasada, decidida. Colocou uma antiga calça Levi Strauss, uma blusa branca, de alças, e pegou aquela velha caixa do closet. 

Era a primeira vez em mais de 15 anos, que colocava novamente um All Star… e riu, quando nos primeiros passos, o jeans do All Star original desprendeu-se da borda do tênis. Pegou uma sandália Jimmy Choo que combinasse com o jeans, e saiu.

No trabalho, estranharam ao ve-la de jeans. Embora houvesse chegado atrasada, saiu apressada ao final do expediente, porque queria passar no shopping. Comprou, apressada, um All Star branco, e sentiu-se divertida, ao caminhar sem salto, saindo da loja com ele, e com as sandálias na caixa do tênis. Correu para o supermercado. Temia não o encontrar… ao mesmo tempo, sequer sabia o que faria ou diria se o encontrasse. Estava experimentando uma sensação que nem lembrava.

Ela ficou mais de 40 minutos por entre as prateleiras do supermercado… e ele não apareceu. Talvez tivesse chegado tarde, por ter ido no shopping.

De alguma forma, ficou triste por não ter encontrado aquele homem estranho, estranhamente familiar.

Então, pensou nas batatinhas.

— Olá querida. Quer as batatinhas da Dora?

Ela sorriu:

— Eu quero. 

— Pra viagem?

— Vou comer aqui.

— Você não é a mesma que ontem esteve aqui e não quis provar as minhas batatinhas? Já sei: você se arrependeu, não foi? Todos se arrependem de não provar as batatinhas da Dora! 

De repente, estava sorrindo, usando jeans, All Star e conversando com uma vendedora de batatinhas em uma esquina do centro da cidade.

Arriscou:

— Será que você não conhece um amigo meu? Ele costuma vir aqui neste horário e comprar batatinhas para viagem…

— Ah, o Marcos? Eu conheço, sim! Gente boa. Mas vou lhe falar: Nem adianta tentar nada com ele, querida. Ele é perdidamente apaixonado pela mulher dele! 

Ela não soube o que dizer… Esforçou-se por perguntar:

— Você a conhece?

— Não. Mas dá pra ver nos olhos dele o quanto é apaixonado. E pelo que ele fala, ela também é apaixonada por ele! Nem gaste seu tempo, querida!

— Não… é só um amigo…! Queria encontrá-lo…

— Venha amanhã!

— O quê?

— Venha amanhã. Ele sempre compra batatinhas nas segundas, quartas e sextas! Religiosamente. Pouco antes das 19h, ele aparece!

Descobriu como encontrá-lo… mas se sentiu tola… de repente, a roupa, o tênis, nada fazia sentido.

— Vou querer mais uma, por favor… pra viagem.

Quando chegou em casa, mais uma vez ouviu a TV ligada na ESPN, o marido com a cerveja… 

Diferente de outros dias, sentou-se ao lado dele, e ofereceu-lhe batatinhas… queria dividir o momento com alguém. Queria de alguma forma, sentir aquilo que Dora havia falado sobre o estranho e sua esposa.

— Amor, o que houve com você? Acha que vou deixar de comer esses Wraps de truta defumada, com queijo branco, pra comer essas batatinhas nesse saco gorduroso? Isso é nojento!

Ela se levantou em silêncio. Colocou o saco de batatinhas no lixo. Tomou um banho demorado. Depois, deletou a página da internet, em que vira a receita do drink de Cointreau com laranjas. Esvaziou o Cointreau na pia. Foi dormir.

 


Luís Augusto Menna Barreto

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 8

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 7

Um Conto Sobre a Dor Guardada - fim.