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Um Conto Sobre Um Amor Guardado - Parte 3

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Quando a viu, ainda de roupão, limitou-se a dizer “oi amor”. Em seguida, parou na porta e disse: — Peça para a Vera preparar uns wraps de truta para eu ver o jogo dessa noite? Ah… e você poderia separar um vinho para levarmos ao Olavo quando formos lá? Ele não esperou resposta. Quando a porta fechou, ela correu para o closet. Estava atrasada, decidida. Colocou uma antiga calça Levi Strauss, uma blusa branca, de alças, e pegou aquela velha caixa do closet.   Era a primeira vez em mais de 15 anos, que colocava novamente um All Star… e riu, quando nos primeiros passos, o jeans do All Star original desprendeu-se da borda do tênis. Pegou uma sandália Jimmy Choo que combinasse com o jeans, e saiu. No trabalho, estranharam ao ve-la de jeans. Embora houvesse chegado atrasada, saiu apressada ao final do expediente, porque queria passar no shopping. Comprou, apressada, um All Star branco, e sentiu-se divertida, ao caminhar sem salto, saindo da loja com ele, e com as sandálias na caixa do tên...

Um Conto Sobre Um Amor Guardado - parte 2

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       Ele acordou, e sorriu ao ver o copo do drink, vazio em cima da mesinha da sala. Lavou a louça.      — Hoje, eu vou comprar mais cointreau, não se preocupe.      Estava feliz. Planejara sair do trabalho e, novamente, passar no supermercado. O dinheiro que ganhava não era muito folgado, mas abria mão de várias coisas para poder ter sempre o cointreau, e as batatinhas compradas no carrinho da esquina.      Na parte nobre da cidade, ela acordou cedo, levantou-se quieta para não acordar o marido que dormia pesado ao seu lado. Quando foi vestir-se para o trabalho, por um instante puxou uma caixa de sapatos que mantinha no fundo do closet, onde ainda guardava o velho All Star da faculdade, e lembranças de quando sonhava com romances e viagens de mochila nas costas. Suspirou, e pegou o scarpin Yves Saint Lourent preto, comprado na Galleria Vittorio Emanuele II, Piazza del Duomo, em Milão, por € 850,00, que combinava co...

Um Conto Sobre Um Amor Guardado - capítulo 1

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  Um dia, enquanto pegava uma garrafa de Cointreau na prateleira do supermercado, ele a encontrou.   Apaixonou-se na escola. A vida seguiu… o coração dele, não. Todos os dias, quando chegava em casa sozinho, não via o vazio. Contava a ela seu dia, enquanto lavava a louça.   Sentava no sofá para ver qualquer filme escolhido por ela, até adormecerem. O que dela não sabia, construiu.   No supermercado, cumprimentou-a como se houvesse falado com ela pela manhã. Ela o olhou em silêncio, surpresa, sem entender. Ele sorriu: — Você está estranha... teve um dia difícil no trabalho? ... laranjas! Precisamos de laranjas. Deixa que eu pego. Vou fazer o suco com Cointreau que você gosta, pra relaxar!   Ele largou a garrafa de Cointreau no carrinho de compras dela. Quando se dirigia para a sessão das frutas, ele se virou e disse: — Você parece cansada. Vá para casa! Eu faço o restante das compras, e, quando chegar, vou preparar o jantar e hoje a louça será toda minha! Ela con...

Um Conto Sobre a Dor Guardada - fim.

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  — Desgraçado. Nazaré não escondia o ressentimento.   — Nem três meses. Justiça imunda! Virado ia apressado para perto da porta de um carro que iria partir. Mancava. Tinha algumas marcas das surras na prisão.   Socorro não voltaria. Nunca mais.   Dora não disse nada. Absorveu. A despedida havia sido no hospital. Apenas ela e Nazaré. Sem lágrimas. Só uma dor vazia.   — Aquele desgraçado deu a primeira facada. Agora, os estudantes vão fatiar. Sem família, sem registros. Nazaré não seria enterrada. Indigente, o corpo ficaria ali mesmo, no hospital universitário. Dora pensou em Bravo. “Eu quero enterra-lo”. Então deu-se conta do pensamento. Mas não se assustou. Bravo estava pelas ruas. Talvez aparecesse novamente. Mas algo nela pensava que um dia iria enterra-lo. Uma auto-defesa, talvez. O inconsciente preparando o coração. A menina dos sucos continuava na esquina. A nota do ENEM não bastou.   Ônibus tinham menos Franciscos na catraca.   Um deles trocava ...

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 8

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  Dora olhava para o movimento, no começo da manhã, sem pensar no que sentia.   Sentia a rua. Aquele universo emprestava o abraço.   Olhava para as pessoas que se movimentavam quase sempre com pressa, passando por tantos “invisíveis” como ela. A mesma pessoa que chegava com pressa para fazer a cópia da chave, na banca de revistas da Nazaré, era a que não a cumprimentaria no dia seguinte, ignorando sua existência. Quem nunca comprou o suco da menina da caixa de isopor da esquina, sequer poderia lembrar que passava por ela todos os dias.   Os mesmos que estacionavam todos os dias ali, nem lembravam que não era a Socorro que estava guardando a vaga, com a flanelinha no braço. Ainda assim, era o pequeno universo que a acolhia. —— Quando chegara em casa no começo da noite anterior, viu a porta entreaberta e luz no apartamento. — Bravo? Depois do silêncio, insistiu: — Filho? Abriu a porta devagar. Sentado à mesa com uma garrafa que ela não soube identificar e o copo simple...

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 7

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Não que ela esperasse algo diferente. Mas a mensagem a Francisco ainda ecoava no vazio. Bravo estava limpo. Alimentado. As feridas tratadas.   A mãe desejava permanecer ali, velando o sono do filho. A vendedora de batatinhas sentia falta da calçada.   A provedora de si própria necessitava trabalhar.   Com tempestade ou nos dias de sol escaldante, Dora nunca deixava de ir. E quando chegou com o carrinho, ainda que estivesse ausente um dia apenas, a sensação era a de que esteve longe e precisava atualizar-se.   Viu Nazaré chegar e abrir a banca de revistas. Depois foi até Dora.   — Bravo? — Sim…   — Francisco?   — Não. — o “não” foi seco. Como quem encerra o assunto.   Nazaré permitiu um instante de silêncio. Então falou: — Socorro está na UPA.   — O de sempre? — Ela se referia à bebida. — Não. Facada. No meio da tarde de ontem. Disputa com o Virado pela cachaça. Ele foi preso.   — Como ela está? — Não sei. No almoço vou lá. Socorro na UPA...