Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 8

 


Dora olhava para o movimento, no começo da manhã, sem pensar no que sentia. 


Sentia a rua. Aquele universo emprestava o abraço. 


Olhava para as pessoas que se movimentavam quase sempre com pressa, passando por tantos “invisíveis” como ela. A mesma pessoa que chegava com pressa para fazer a cópia da chave, na banca de revistas da Nazaré, era a que não a cumprimentaria no dia seguinte, ignorando sua existência.


Quem nunca comprou o suco da menina da caixa de isopor da esquina, sequer poderia lembrar que passava por ela todos os dias. 


Os mesmos que estacionavam todos os dias ali, nem lembravam que não era a Socorro que estava guardando a vaga, com a flanelinha no braço.


Ainda assim, era o pequeno universo que a acolhia.


——


Quando chegara em casa no começo da noite anterior, viu a porta entreaberta e luz no apartamento.


— Bravo?


Depois do silêncio, insistiu:

— Filho?


Abriu a porta devagar.

Sentado à mesa com uma garrafa que ela não soube identificar e o copo simples que ela usava, já vazio. Francisco apoiava a cabeça com as duas mãos e disse apenas:


— Ele não está aqui.


Dora olhou tudo desarrumado. Sofá arrastado. Armários abertos. O pote de vidro onde guardava suas economias em um saco plástico no meio o arroz, tinha apenas uns poucos grãos que não estavam derramados no assoalho. Olhou desolada para Francisco. Ele levantou. Não para um abraço. Mas para fugir, mais uma vez. 


Passou por ela sem dizer nada. 


Sabia que levaria tempo e somente o veria, se nada mais restasse a ele. 


Bravo estaria em algum beco, em alguma rua mal iluminada, em algum lugar imundo, fazendo qualquer coisa por uma seringa.


Ela começou a arrumar tudo… enquanto Francisco comprava bebida, usando dinheiro de um saco plástico que ainda tinha alguns grãos de arroz.


(Continua...)


Luís Augusto Menna Barreto, em 31 de março de 2026.

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