Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 8
Dora olhava para o movimento, no começo da manhã, sem pensar no que sentia. Sentia a rua. Aquele universo emprestava o abraço. Olhava para as pessoas que se movimentavam quase sempre com pressa, passando por tantos “invisíveis” como ela. A mesma pessoa que chegava com pressa para fazer a cópia da chave, na banca de revistas da Nazaré, era a que não a cumprimentaria no dia seguinte, ignorando sua existência. Quem nunca comprou o suco da menina da caixa de isopor da esquina, sequer poderia lembrar que passava por ela todos os dias. Os mesmos que estacionavam todos os dias ali, nem lembravam que não era a Socorro que estava guardando a vaga, com a flanelinha no braço. Ainda assim, era o pequeno universo que a acolhia. —— Quando chegara em casa no começo da noite anterior, viu a porta entreaberta e luz no apartamento. — Bravo? Depois do silêncio, insistiu: — Filho? Abriu a porta devagar. Sentado à mesa com uma garrafa que ela não soube identificar e o copo simple...