Um Conto Sobre a Dor Guardada - fim.
— Desgraçado.
Nazaré não escondia o ressentimento.
— Nem três meses. Justiça imunda!
Virado ia apressado para perto da porta de um carro que iria partir. Mancava. Tinha algumas marcas das surras na prisão.
Socorro não voltaria. Nunca mais.
Dora não disse nada. Absorveu. A despedida havia sido no hospital. Apenas ela e Nazaré. Sem lágrimas. Só uma dor vazia.
— Aquele desgraçado deu a primeira facada. Agora, os estudantes vão fatiar.
Sem família, sem registros. Nazaré não seria enterrada. Indigente, o corpo ficaria ali mesmo, no hospital universitário.
Dora pensou em Bravo. “Eu quero enterra-lo”. Então deu-se conta do pensamento. Mas não se assustou. Bravo estava pelas ruas. Talvez aparecesse novamente. Mas algo nela pensava que um dia iria enterra-lo. Uma auto-defesa, talvez. O inconsciente preparando o coração.
A menina dos sucos continuava na esquina. A nota do ENEM não bastou.
Ônibus tinham menos Franciscos na catraca.
Um deles trocava por cachaça as últimas notas do seguro desemprego, depois que todas as notas que ainda tinham algum grão de arroz acabaram.
Dora olhou um momento o movimento tão intenso na rua que pulsava, viva, ávida para consumir vidas que se esqueciam.
Um velho com muleta, que todo dia passava no outro lado da calçada, seguido de longe por um cachorro com a pata torta.
Dois garotos que começaram a vir todos os dias, pedir nas janelas dos carros, quando paravam no sinal.
A menina dos sucos que ainda teria um tempo antes de desistir dos sonhos.
Nazaré, que se ressentia da falta da Socorro, vez ou outra ainda útil por algum distraído que perdia chaves.
Uma mulher que vendia batatinhas.
— … ora Michele. Coloque este aluno na última carteira da sala. E chame-o sempre para apagar o quadro. Ao menos ele largará o celular uns minutos, e fará algum exercício caminhando até a frente da turma!
Fim.
Luís Augusto Menna Barreto, em 7 de abril de 2026
Reconheço, sou sonhadora. Nao era o fim q eu queria. Mas é real. Nao há milagres. A vida continua normalmente, com pessoas invisíveis, seguindo a vida q tem. E a dor de Dora continuará doendo. E as pessoas passando pra comprar batatinhas.
ResponderExcluirEu precisava respeitar a realidade da Dora. Respeitar a rua. Respeitar as Doras de todos os dias e que muitas vezes nós mesmos tornamos invisíveis…!
ExcluirÉ o fim de uma história que continua, fim aqui para os leitores, e continuação pra os personagens reais com suas dores, perrengues, mas de certa forma com algum sonho... a vida que segue...muito bom.
ResponderExcluirAh, Nice… tu pegaste o EXATO ESPÍRITO da coisa: eu não poderia “trair” Dora, com um final de fantasia… não poderia enganar o leitor… Gosto tanto da Dora, que ela tinha de ser real… viver no mesmo mundo do Velho e o Garrincha” (o velho de muletas e o cachorro dá pata torta)… mesmo mundo do Pilha (dois garotos que apareceram pedindo no sinal)… ela tem de continuar viva como todos nós, que sorrimos para os amigos e tantas vezes o espelho mostra lágrimas no nosso coração…! Obrigado por teres lido… por acompanhares… por vires aqui…!!!
ExcluirSou sonhadora, e admiro o teu respeito com as Doras, Rosas, Margaridas, Marias, e tantas outras, sem fins...
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